Delação de líder do esquema do INSS aponta papel de Euclydes Pettersen na estrutura de fraudes

 Delação de líder do esquema do INSS aponta papel de Euclydes Pettersen na estrutura de fraudes

O deputado federal mineiro Euclydes Pettersen (Republicanos) foi alvo de uma operação da PF que investiga um esquema de fraudes no INSS. Foto: Júlio Dutra/Republicanos

Acordo de colaboração está sob análise do ministro André Mendonça, no STF; deputado mineiro nega participação

O detalhamento do suposto papel do deputado federal Euclydes Pettersen no esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões de cerca de 600 mil beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) é um dos pontos da delação premiada do empresário Mauricio Camisotti.

Apontado como um dos líderes do esquema ao lado de Antônio Carlos Camilo Antunes, Camisotti descreve, nos depoimentos prestados à Polícia Federal (PF), a atuação do parlamentar e de outros agentes públicos. A informação foi confirmada por O Fator com fontes que participam do processo.

Conforme apurado pela reportagem, a principal ligação de Euclydes era com a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), presidida por Carlos Roberto Ferreira Lopes. A forma como ele agia, contudo, teria servido como “exemplo” em grupos da estrutura.

Teria sido narrado por Camisotti como o deputado supostamente atuava para abrir portas em órgãos públicos e junto a outros parlamentares, além de ser citado como um dos “protetores” de entidades. Outro nome citado nos depoimentos seria o do senador Weverton Rocha (PDT-MA).

A delação premiada

O conteúdo da delação está sob análise do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável por decidir sobre a homologação do acordo. Também está em negociação o valor a ser devolvido pelo empresário aos cofres públicos a título de indenização.

Camisotti é o primeiro integrante do grupo a buscar acordo de colaboração premiada e pede a substituição da prisão por domiciliar. Ele foi preso em setembro, no âmbito da operação “Sem Desconto”, deflagrada pela PF e pela Controladoria-Geral da União (CGU).

No último mês, foi transferido da penitenciária de Guarulhos, em São Paulo, para a Superintendência da PF no estado, com o objetivo de acelerar a coleta de depoimentos. Proprietário de empresas que atuam nos setores de seguros e planos de saúde, durante a CPMI do INSS no Congresso Nacional, foram identificadas ligações da família de Camisotti com o esquema.

O empresário é apontado como sócio oculto da Associação de Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec), uma das entidades que mais se beneficiaram dos descontos ilegais. Também há relação com o Centro de Estudos dos Benefícios dos Aposentados e Pensionistas (CEBAP) e com a União dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (UNSBRAS), investigadas na operação.

O que diz Euclydes Pettersen

Procurada, a assessoria de imprensa de Euclydes Pettersen afirmou que, em relação ao nome dele, “as declarações do delator são meras ‘palavras de ouvir dizer’ e baseiam-se em narrativas infundadas veiculadas pela própria mídia há meses”.

“O delator não fala do que sabe, mas repete o que leu ou ouviu na mídia, sem apresentar qualquer prova ou caminho para sua obtenção – ônus que lhe cabe por lei. Como os fatos narrados inexistem, trata-se de um depoimento vazio, sem elementos de corroboração, sendo tentativa infrutífera de dar relevância a um depoimento e que não traz absolutamente nada de novo ou real ao processo”.

A reportagem também procurou a defesa de Mauricio Camisotti. O espaço segue aberto.

O que diz a PF

A PF afirma que o deputado federal Euclydes Pettersen participou da promoção de programas públicos – “Mais Pecuária Brasil” e “Mais Previdência” – usados como fachada para obter dados pessoais de beneficiários do INSS. Os programas eram ligados à Conafer e serviram para captar cadastros.

As informações foram usadas depois para autorizações fraudulentas de descontos, gerando um fluxo de recursos que chegou a R$ 708 milhões. Parte desse dinheiro teria sido desviada para empresas de fachada e para o pagamento de propina a servidores do INSS e a agentes políticos.

O relatório aponta ainda que Pettersen atuava como elo político do esquema, responsável por facilitar articulações e dar cobertura institucional à Conafer. A PF calcula que ele recebeu ao menos R$ 14,7 milhões, valores ocultados por meio de empresas registradas em Minas Gerais.

Nas planilhas de pagamento da confederação, o presidente do Republicanos no estado é identificado pelo apelido “Herói E”. De acordo com a investigação, Pettersen era “figura essencial” para a manutenção da organização e o trânsito político permitia a continuidade dos pagamentos irregulares decorrentes do convênio.

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