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domingo, 30, novembro, 2025
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Brasileira que passou 60 anos se alimentando só da Eucaristia é tema de pesquisa na UFJF

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Floripes Dornellas de Jesus, conhecida como Lola, em foto do início dos anos 80: leiga católica passou mais de 60 anos se alimentando apenas da hóstia consagrada. (Foto: Arquivo pessoal)

A vida de uma católica leiga brasileira, candidata a santa, que passou décadas sem comer nem beber, alimentando-se apenas da hóstia consagrada, será estudada pelo Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (Nupes), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Floripes Dornellas de Jesus, conhecida como Lola, passou quase sete décadas presa a uma cama, paraplégica em decorrência de uma queda ocorrida na adolescência, e por quase todo esse tempo ficou sem comer, sem beber e sem dormir, apenas recebendo a Eucaristia. “Desde criança eu já tinha ouvido falar da Lola; meus pais, que estão na casa dos 80 anos, me falavam dela – Rio Pomba, onde ela viveu, fica a menos de 100 quilômetros de Juiz de Fora. No entanto, só mais recentemente surgiu a possibilidade de investigar o caso dela”, conta o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, coordenador do Nupes, que conduz a pesquisa ao lado de Julio Chebli, professor de Gastroenterologia e ex-reitor da UFJF, e do estudante de Medicina Caio Almeida (filho de Alexander).

O geriatra Cláudio Bomtempo, professor na Faculdade de Medicina de Barbacena, está colaborando com a pesquisa; por cerca de cinco anos, ele foi o médico de Lola, que faleceu em 1999. “Ela sempre foi católica praticante. Depois que caiu da jabuticabeira, fraturou vertebras lombares e ficou paraplégica, percebeu que não conseguiria mais ter uma vida normal em relação à mobilidade, e decidiu que passaria o resto da sua vida divulgando a fé e devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Foi gradativamente perdendo o apetite, a sede e o sono até que, uns cinco anos depois, parou completamente de comer, beber e dormir”, descreve Bomtempo. Caio Almeida explica que, no momento, a pesquisa tratará apenas dos fenômenos de ordem fisiológica envolvendo a vida de Lola. “Nós sabemos que há relatos de experiências espirituais, como curas, experiências de quase morte, precognição ou profecia, e isso pode ser explorado no futuro, mas o que propusemos e o que foi aprovado no Comitê de Ética da universidade foi a investigação sobre as alegações de que Lola não comia, não bebia, não dormia e nem tinha excretas, ou seja, não ia ao banheiro para urinar ou defecar”, diz o estudante de Medicina.

“Inédia eucarística”, fenômeno em que uma pessoa só ingere a comunhão, já foi registrada em santos de vários séculos

Moreira-Almeida afirma que, como em todas as outras experiências que o Nupes investiga, trata-se de usar o que ele chama de “ceticismo saudável”, em contraponto ao que seria um ceticismo militante, que já descarta de antemão a possibilidade do fenômeno extraordinário, concluindo que há fraude antes mesmo de estudar o caso. “De acordo com nosso conhecimento de fisiologia humana, não seria possível uma pessoa passar décadas sem uma alimentação adequada, sem o sono e sem a hidratação. Mas vamos investigar se foi realmente isso o que aconteceu no caso da Lola”, diz o psiquiatra.

História da Igreja tem casos semelhantes ao de Lola
O fenômeno pelo qual uma pessoa passa longos períodos sem se alimentar é chamado “inédia”, mas o caso de Lola é chamado “inédia eucarística”, já que ela só ingeria a comunhão eucarística. Há diversos registros semelhantes ao longo da história. Os mais antigos de que se tem notícia são os de Santa Catarina de Sena, no século 14, e São Nicolau de Flüe, no século 15. Mais recentemente, no séculos 18 e 19, há os casos de Santa Júlia Billiart (que, assim como Lola, ficou paraplégica, passando 22 anos nesta condição até ser milagrosamente curada) e da bem-aventurada Anna Catharina Emmerich. No século passado, além de Lola, são conhecidos os casos da bem-aventurada portuguesa Alexandrina de Balasar e da mística alemã Theresa Neumann.

“Nem todo caso é igual, e o que chama a atenção em relação a Lola é a duração do fenômeno e o fato de ela também não dormir”, diz Bomtempo. Moreira-Almeida ainda acrescenta que Lola, apesar de não sair da cama onde a paralisia lhe mantinha, não desenvolvia as escaras típicas de quem passa períodos prolongados no mesmo lugar. “Mas é preciso lembrar que esses fenômenos não eram o motivo da santidade dela; eram apenas sinais da presença de Deus na vida eucarística de Lola”, ressalta o médico geriatra, afirmando também que a privação de comida e bebida não havia causado nenhum problema de saúde (como, por exemplo, uma anemia) em Lola, além da fraqueza natural causada pela idade avançada.

Não demorou muito para que Lola ganhasse fama e fiéis viessem visitá-la, e não apenas os da região de Rio Pomba. Ela, no entanto, era avessa a qualquer tipo de autopromoção e preferia incentivar nas pessoas a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. A certa altura, Lola parou de receber todos os que a procuravam, reservando seu tempo para sacerdotes, religiosas, vocacionados e doentes graves, segundo Bomtempo – foi acompanhando um padre que o então jovem vestibulando de Medicina teve seu primeiro contato com Lola; apenas dez anos depois ele voltaria a encontrá-la e se tornaria seu médico. Além do próprio Bomtempo, um dos grandes divulgadores da vida de Lola foi dom Luciano Mendes de Almeida, arcebispo de Mariana (MG) de 1988 até sua morte, em 2006.

Depoimentos e documentação escrita sobre Lola formarão a espinha dorsal da pesquisa
Uma investigação científica deste tipo esbarra em um obstáculo bastante óbvio. “O ideal, claro, seria que Lola estivesse viva e pudéssemos monitorá-la continuamente ao longo de semanas, para estabelecer de forma irrefutável se ela ficava ou não efetivamente sem alimentação, sem produzir excretas, sem dormir e sem beber líquidos. Mas a realidade não é como gostaríamos”, diz Moreira-Almeida. “Mesmo assim, um caso raríssimo como esse não poderia ficar sem uma investigação”, acrescenta. Por isso, os investigadores estão investindo pesado na coleta de testemunhos. “Lola não está mais viva, mas muita gente que a conheceu e conviveu com ela está. Se não fizermos isso agora, se esperarmos mais alguns anos, vamos perder essas testemunhas oculares de primeira mão”, afirma o coordenador do Nupes.

“Esta é uma análise científica da qual a Igreja necessita para dar credibilidade moral e de fé ao processo, e mais ainda à idoneidade do candidato à honra dos altares.”

Padre Rodney Francisco Reis da Silva, postulador da fase diocesana da causa de canonização de Lola.
Entre a lista de fontes consultadas para a pesquisa, conta Caio Almeida, estão o orientador espiritual que a aconselhou nos últimos anos de vida; a mulher que vivia na casa de Lola, como ajudante; outras pessoas que eram próximas a ela; e o médico Cláudio Bomtempo. Além disso, os pesquisadores estão recolhendo todo tipo de registro escrito sobre ela, como laudos médicos, anotações de gente famosa e anônima que conheceu Lola, reportagens jornalísticas e a produção acadêmica já feita a seu respeito. “Dentro do contexto que temos, estamos fazendo todo o possível, recolhendo todas as informações, para depois cruzar esses relatos e ver o quanto eles corroboram o que se conta a respeito de Lola, se há algum tipo de contradição ou indício de fraude”, comenta Moreira-Almeida.

Processo de canonização de Lola deve ser aberto em breve
Em 2005, dom Luciano Mendes de Almeida pediu ao Vaticano a autorização para a abertura do processo de canonização de Lola – as regras da Igreja Católica determinam que os processos sejam abertos na diocese onde a pessoa faleceu, e Rio Pomba está no território da arquidiocese de Mariana. Com o nihil obstat da então Congregação para as Causas dos Santos, Lola passou a ser reconhecida com o título de “serva de Deus”. Mesmo assim, por uma série de circunstâncias, não chegou a haver a abertura oficial do processo. Apenas recentemente dom Airton José dos Santos nomeou um postulador, o clérigo encarregado de “fazer andar” a causa. “Creio que a instalação do tribunal e a abertura do processo não irão demorar”, afirma o padre Rodney Francisco Reis da Silva.

O sacerdote ainda terá muito trabalho pela frente – só quando terminar toda a fase diocesana, com a investigação minuciosa da vida do candidato a santo, coleta de documentos e testemunhos, e se houver uma avaliação positiva por parte da diocese, é que a causa segue para Roma e o candidato recebe o título de “venerável”. O padre Rodney acredita que a pesquisa do Nupes poderá ajudar muito no decorrer do processo. “Esta é uma análise científica da qual a Igreja necessita para dar credibilidade moral e de fé ao processo, e mais ainda à idoneidade do candidato à honra dos altares”, diz o sacerdote postulador.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/

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